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  • Mariana Pavan

Referências femininas em temas “masculinos”

Pois é, depois de uns bons meses, voltei ao blog. E vi que isso aqui dá mais trabalho do que eu imaginava - muitas vezes o trabalho e a falta de tempo brigam feio com a inspiração. Mas, depois dessa última semana, senti mesmo de escrever sobre o que já aconteceu neste pouco tempo de 2019.

Desde que o ano começou, já tivemos turmas do Deixa Que Eu Faço, oficinas corporativas, mini-oficinas e vários planos se concretizando pra esse ano. De tudo o que já aconteceu, tem um ponto que tem me chamado a atenção, agora com mais força: a importância de termos referenciais femininos em “temas masculinos”.


Explico: sempre que converso com as pessoas sobre manutenção residencial, surge o tema de “quem fazia as coisas lá em casa”, e muitas vezes surgem figuras como o pai, o avô, irmão, tios… das minhas experiências, na maioria dos casos são figuras masculinas. E isso é bem compreensível, pois quando falamos de trabalho nestas áreas, a atuação maior ainda é dos homens - nas gerações de quem tem 30 anos ou mais, tendia-se a ensinar mais os garotos esse tipo de assunto.


Um dado pouco estatístico, mas é só jogar “manutenção residencial”, ou “elétrica”, “hidráulica” em qualquer banco de imagens e ver que a maioria é de figuras masculinas. Outra constatação bem comum, são os termos “Pereirão” ou “marido de aluguel”, que se aplicam às mulheres e vêm totalmente carregados dos mesmos estereótipos.

Ao mesmo tempo, vez ou outra surge alguém que diz “ah não, lá em casa quem fazia as coisas era minha mãe/avó/tia, ela quem resolvia tudo desses consertos”. E sinto que existe uma potência diferente quando alguém traz uma referência como essa - não é só uma mulher que sabia resolver as coisas em casa (os serviços tido como “dos homens”), é como se fosse alguém que subvertia uma lógica comum e ousava ocupar um lugar que diziam não ser feminino, independente dos motivos que colocaram aquela mulher em tal posição. Tem uma dose extra de orgulho ao dizer “em casa quem faz tudo é minha mãe”.

Quebrando a lógica

E ouvir isso tem me feito refletir sobre o quão importante é – neste processo de dissolver essa separação e visão velha do que é ou não “coisa de mulher” – criar referenciais femininos em temas “masculinos”. Porque eu acredito que devemos sempre questionar e desafiar essa lógica imposta que nos diz onde podemos ou não estar, ou o que podemos ou não fazer. Porém, quando olhamos para uma atividade e não vemos nenhuma mulher lá, ou não temos ninguém pra nos inspirar essa entrada, me parece que esse caminho fica um pouco mais longo, esse passo inicial exige mais esforço.

Mas, quando eu vejo uma mulher atuando ali, é quase como se ela abrisse uma porta e nos desse um incentivo a mais pra entrar. E quanto mais referências femininas criamos, menos masculino esse tema vai se tornando, vai deixando de ser de domínio exclusivo dos homens. E por isso acho que, independente dos motivos que levam cada mulher a um curso como o Deixa Que Eu Faço, esse movimento é também um passo nessa direção (ainda que pode ser meramente uma necessidade prática, como trocar uma resistência de chuveiro, e só, sem ter absolutamente nenhuma motivação feminista ou algo do tipo). É ter mais alguém que vai poder ir ajudar uma amiga ou familiar, e quebrar a lógica do “só chamo meu pai/namorado/amigo/porteiro”.

Em um dos cursos, uma garota fez um depoimento muito sincero, dizendo que ela sempre gostou dessas coisas de ferramentas, consertos e afins. E que sempre diziam a ela que ela tinha interesses muito estranhos e que ela era uma “mulher macho”. E contou como, durante o curso, ela se sentiu entre pares, ao ver tantas mulheres diferentes, cada uma do seu jeito, compartilhando uma série de fazeres “masculinos”, de formas tão femininas. E do quanto se sentiu grata por aquele momento.

Isso me tocou profundamente, porque eu mesma já ouvi coisas bem parecidas quando era criança (e confesso, até bem mais velha). Hoje quando eu vejo uma sala com 20 mulheres trocando uma resistência de chuveiro, comemorando e dizendo “ah, agora ninguém me segura!”, também me sinto muito grata. E vejo aquilo como algo tão, mas tão feminino! Enxergo cada mulher ali não somente como alguém que agora sabe se virar melhor nas coisas de casa, mas alguém que faz uma pequena revolução ao pisar em um mundo que disseram não ser dela, atuando ali com a sua própria linguagem e seu jeito de fazer.



Quantas portas elas abrem chamando outras para que elas também possam entrar?


Neste mês da mulher, fico com o desejo de que que existam mais, muitas mais de nós, em tantos temas, em toda parte. Tantas que possam nos olhar e dizer: vem também.

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